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segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Um Matuto Caminhante: Capítulo 8 - Recife e Olinda (Versão Preliminar)

 CAPÍTULO  8


Recife Antigo


8.1. Recife


        Até os anos 60, conforme já focalizamos no capítulo sobre a Festa Universitária de Patos, só famílias das classes média alta, tinham condições de manter seus filhos estudando fora do município, para concluírem o curso Científico e, posteriormente, prestarem vestibular nas universidades. As capitais João Pessoa e Recife eram os destinos mais procurados dos patoenses, por ofertarem mais vagas nos cursos nas diversas áreas do conhecimento.
        Eu, Alberto, George e Osvaldo, meus irmãos, fomos estudar em Recife. Alberto e George, Medicina, na Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco. Eu em Estatística pela Universidade Federal de Pernambuco e Osvaldo em Comunicação Social, pela Universidade Católica de Pernambuco.
        Para tanto, alugou-se uma quitinete, no Edifício Lapenda, localizado na esquina da Rua Dom Bosco com a Avenida Conde da Boa Vista; próximo ao centro, na Ilha do Leite; o que nos facilitava muitas vezes nossa ida aos Cinemas São Luiz e Boa Vista.
        Tendo concluído o curso de medicina, Alberto casou-se e foi morar na Rua dos Prazeres na Ilha da Leite. Nesse interim já tinha ido morar com Alberto nosso amigo Carlos Magno (Bibis) - foi padrinho de Tonico Trigueiro, filho de Alberto. Como a quitinete era muito pequena e habitada por uma superpopulação a apelidamos de “¾” (três por quartos).
        Em 1966, chegou minha vez de estudar no Recife e ocupei a vaga de Alberto no “¾” (três por quartos) agora, com a companhia de Bibis. Estudei no tradicional Colégio Padre Felix que ficava na Avenida Conde da Boa Vista, onde fiz o segundo e terceiro anos Científico. A época, como não havia bandidagem nas ruas nos íamos ia a pé. Bons tempos!


Colégio Padre Feliz na Avenida Conde da Boa Vista

        
        Morei com Carlos Magno (Bibis) por dois anos. Nunca brigamos, pelo contrário, éramos amigos. Como eu era sonso, bolei uma brincadeira que o vez ficar bravo. - Bibis por ser cego, de um olho, usava um olho de vidro. Astuto, fiz uma brincadeira, que só hoje vejo o tamanho do mau gosto. Bibis antes de dormir tirava o olho postiço e colocava num copo d’água. Não deu outra escondi o olho. Na manhã seguinte, quando ele acorda, foi um Deus nos acuda, Procurou olho e não encontrou. Passado o impacto assumi minha estupidez. Claro que ele continuou irado e foi fazer queixa a Alberto comunicando-lhe que não tinha mais condições de morar comigo. Alberto, jeitoso, contornou a situação e continuamos morando juntos e amigos.
        Formado em Medicina, Bibis foi morar na cidade de Ceres em Goiás. Então, um outro amigo meu, João Furtado, que também se formou em Estatística pela UFPE, veio morar comigo. Sua passagem foi rápida, pois, um ano depois, ele sai e veio meu irmão George.
        Em 1970 chega ao Recife, meu irmão Osvaldo, que junto com George estudaram e concluíram o Curso Científico no Colégio Salesiano.


Colégio Salesiano na Rua Dom Bosco


        O nosso edifício, o Lapenda, era uma verdadeira comunidade patoense e lá residiam diversos amigos de infância: Francisco José e Fred Tavares, Inácio Xavier, Umberto Fernandes Nóbrega e Severino Amorim (Biu). Todos nós frequentávamos as quitinetes uns dos outros. Francisco José formou-se em Matemática e Engenharia Civil, Fred Tavares em Medicina, Inácio Xavier em Agronomia, Umberto Fernandes Nóbrega em Matemática e Biu que era bancário e foi ser gerente da agência do PARAIBAN no Recife.


Avenida Conde da Boa Vista

        Naquela época tínhamos a liberdade de andar nas ruas, sem temer a violência. Todos nós percorríamos a pé as ruas da cidade, a exemplo da Avenida Conde da Boa Vista, Rua da Imperatriz, Rua Nova, Rua Dom Bosco, as ruas da Ilha do Leite, Avenida Guararapes, Avenida Rosa e Silva, o Derby etc.

       Usei várias vezes o ônibus elétrico para me deslocar para a Cidade Universitária ou outros bairros do Recife. Era um transporte seguro e ecológico. Acho que seria uma alternativa lógica voltar os bondes ou ônibus elétricos para melhorar a mobilização nas cidades de grande porte.



Ônibus Elétrico - Transporte dos estudantes para a Universidade


        Todos os patoenses que moravam no Lapenda faziam refeições na pensão de dona Nina, que ficava na Avenida Conde da Boa Vista, n° 640, o que aliás, ficava perto das Faculdades de Direito, Arquitetura, Engenharia e dos Colégios Irmãos Marista e Carneiro Leão, além de ficar em frente ao Padre Felix e dos cursinhos preparatórios para o vestibular.
        Dona Nina uma senhora de baixa estatura, magra e de cabelos pretos era dotada de energia contagiante. Como ela tinha uma especial atenção aos patoenses, a pensão transformou-se numa verdadeira embaixada de Patos. Era o ponto de convergência da colônia patoense. Uma festa!
        Embora não morassem no Lapenda e não faziam refeições na pensão de Dona Nina, constantemente outros amigos e conterrâneos sempre nos visitavam. Eram eles: Pedro Firmino, João e Ricardo Furtado, Paulo Celestino, Agrimar Leite e Durval Travassos, além de Pedro Jorge Gayoso etc.
        Nos fins de semana quando sobrava algum dinheiro da mesada, caíamos na farra. Começava no Bar do Mustang e terminava nos velhos cabarés do Cais do Porto, com suas escadas de madeira e em caracol.  Entre eles destacava o Moulin Rouge, com a grande placa de luzes vermelhas e amarelas, que acendiam e apagavam dando uma visão das hélices em movimento. No fim da farra nos dirigíamos para a Cantina Star, situada na Avenida Conde da Boa Vista, para ali deliciar um filé à Califórnia servido pelo ilustre garçom Cabeleira. Em geral, esses jantares terminavam ao alvorecer do dia.
        Nos fins da tarde, após as aulas da faculdade, íamos para “A Modinha” ou “Aky Discos”, ouvir, ou comprar Lp’s ou compactos, dos últimos sucessos da Jovem Guarda, em especial, de Roberto Carlos.
        Nos sábados a tarde íamos para a residência de dona Iracy Crisanto na Rua dos Prazeres na Ilha do Leite. Dona Iracy era a sogra de Alberto e me tratava como um filho. Lá, ficávamos, para assistir o programa “Você faz o Show”, apresentado por Fernando Castelão e Lolita Rodrigues na TV Jornal do Commércio, Canal 2.
        Gostávamos também de ouvir na radiola, os últimos sucessos de Agnaldo Timotheo e Ângela Maria; sempre acompanhado de um bom papo e uísque de primeira qualidade. Simone e Jeanne, filhas de Dona Iracy, faziam parte também desse ambiente se tornar mais agradável, nascendo daí uma boa amizade. Com isso, quando não tínhamos compromisso era para lá que nos dirigíamos. Fui o cupido no namoro das duas que culminou em seus casamentos com os amigos Haroldo (Simone) e Douglas (Jeanne).
        Impossível não falar de cinema. Minha arte preferida. Frequentemente ia ao Cinemas Moderno, Boa Vista e ao São Luiz para assistir os lançamentos nas sessões de arte, filmes de suspense, faroestes e chanchadas brasileiras.



Cinema São Luiz


        Continuando em falar de saudade jamais poderia ficar de fora os carnavais de Recife – Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço ...”de suas semanas pré-carnavalescas; das manhãs tradicionais no baile dos Artistas, no Batuta de São José no Bairro de Afogados; de seus corsos, à tarde, na Avenida Conde da Boa Vista, “num lombo” de um Jeep, sem capota, de Haroldo Souto Maior. Era muito talco, confetes, serpentinas e lança perfume que a época era permitida. Já a noite íamos ao baile do Clube Português.
        Quando cheguei ao Recife comecei a torcer pelo Náutico. Tive a felicidade de assistir a final em que o clube conquistou, em 1968, o hexa campeonato, em cima do Sport. O time ainda sei de cor: Lula, Gena, Mauro, Salomão, Gilson Saraiva, Clóvis, Nado, Bita, Nino, Ivan e Lala. O técnico era Duque.



Estádio dos Aflitos do Náutico 

        Como universitário lecionei no Colégio Paulo Viana a disciplina Estatística Descritiva. Fui monitor e estagiário na Secretaria das Finanças de Pernambuco, quando o meu professor de Pesquisa Operacional, José Jorge Vasconcelos, era o Secretário de Estado. Depois, ele foi Deputado Estadual, Federal, Senador da República, como também foi Ministro do Tribunal de Contas da União. Terminada a graduação ele me convidou para trabalhar no CONDEPE – Conselho de Desenvolvimento de Pernambuco, No entanto, preferi morar em João Pessoa e prestar concurso para Universidade Federal da Paraíba.



Declaração do Colégio Técnico Paulo Viana


8.2. Olinda


        Olinda, fundada em 1535, pelo Capitão Donatário Duarte Coelho, além de sede da Capitania de Pernambuco foi a primeira Capital brasileira. Tanto é assim, por ser uma das cidades mais antiga e conservada do Brasil, em 1982, a UNESCO concedeu-lhe o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.
        Atualmente a cidade de Olinda está interligada com a cidade de Recife, Capital de Pernambuco e faz parte da região metropolitana.



Vista áerea de Olinda

        No meu tempo de estudante, um dos meus hobbies era frequentar a casa de Lindmar e Judith a essa época já haviam mudado de Campina Grande para Olinda. Lá, eles tomaram casa, pelo motivo do casal gostar de criar animais e cultivar jardins.



Judith e Lindmar


        Sendo um casal carismático, era muito visitado por seus familiares e amigos. Nos fins de semana a casa era sempre cheia, onde reinava a boa música, a gastronomia sempre acompanhada de uma loira gelada etc. A filha Tércia, puxou aos pais e ainda hoje é conhecida como a “Doutora do Forró” e suas casas em Olinda e Gravatá sempre estão abertas para receber familiares e amigos.



Tércia e Aninha (nossa afilhada) e filhas de Judith e Lindmar

 
        Nos domingos era quase sagrado ir à casa de Lindmar e Judith em Olinda, por volta das 10hs00. Logo começavam os trabalhos! Lindmar acordava cedo e ia para o Mercado Público de Olinda comprar os tira-gostos e o almoço. Ele fazia uma costela de boi, assada na brasa, que até hoje eu e meus irmãos ficamos com água na boca. Não dá para esquecer! 
        O que mais admiro no povo pernambucano é o seu amor à história e o respeito ao passado. As cidades, as praças, as ruas preservam a sua identidade e o seu nome de batismo. De forma que é fácil andar no Recife - os endereços são seculares e os nomes muitas vezes estão ligados a um fato histórico, a exemplo dos nomes das ruas: Velha, Nova, Imperatriz, Sossego, Progresso, Das Calçadas, Do Pescador, Conde da Boa Vista, Hospício, Sete de Setembro, Rui Barbosa, Boa Viagem, Pina, Piedade, Caxangá, Cruz Cabugá, Norte, Lins Petit, Praça Chora Menino, Praça dos Diários, Aurora, Sol. Saudade...  
 
“Quem tem saudade não está sozinho
Tem o carinho da recordação
                                Por isso quando estou mais isolado                                
Estou bem acompanhado com você no coração”

...


18 comentários:

  1. Ai que saudade tem do meu Recife ...

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    1. RECORDAR É VIVER, PRINCIPALMENTE QUANDO SE
      DEIXA NA ESCRITA ESSE PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL... PARABÉNS ( Jose de Sousa Fagundes.) +

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  2. Que bom você com a memória boa que nem todo mundo tem.
    Judith Medeiros.

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    1. Recordar é viver e dominar essa arte na escrita é um patrimônio inestimável que se deixa à humanidade.... Parabéns..

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  3. Muito bom. Recordar é viver.
    Elza Meira Barreto

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  4. Meu Padrinho Anúbis
    Tonico Trigueiro.

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  5. Tá muito bom seus artigos! Agradável leitura!
    Osvaldo Pessoa.

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  6. Parabéns Carlos ,seu livro será um presente aos brasileiros, especialmente aos paraibanos e patoenses...
    Agrimar Leite

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  7. Muito obrigado amigo, pela saudosa lembrança dos anos 60 e 70 que vivi em Recife e Olinda.

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  8. Muito bom Carlos, recordar é viver!!! Parabéns
    Maria de Lourdes Cirilo Pessoa

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